2.1.10

Eduardo Paes

Sou um apaixonado pelo reveillon de Copacabana. Essa festa é unica porque é a cara do Rio, uma cidade tão diferente, onde as diferencas entre poderosos, simples mortais e pobreza absoluta podem, às vezes, milagrosamente, conviver em harmonia e paz. E o reveillon de Copacabana é um dos raros momentos em que isso acontece, a magia da renovação.

Não sei se são complexos os mecanismos dessa convivência, nunca analisei profundamente. Mas sempre imaginei que para o povo pobre e sofrido, aquela noite de 31 de dezembro é o momento não só de renovar as esperanças, como fazem os ricos de suas janelas iluminadas na Atlântica, mas também de levar pra família um trocado extra, às custas de trabalho honesto, livre e muito suado, no leva e traz de cerveja, gelo, isopor e cachaça. Para o público como eu, classe média-média, aquele produto gelado e barato, nunca em falta, é protagonista mais que essencial dessa festa, está dentro do pacote de harmonia e paz.

O senhor prefeito Eduardo Paes (nao merece o sobrenome), com seu choque de (des)ordem, quebrou a engrenagem da mágica. Choque de ordem que só ordena os interesses de poucos, como sempre nesse Brasil desigual. Senão vejamos: tirou do pobre a chance do primeiro dia de um novo ano com uma graninha extra (repito: às custas de muito suor), matou de sede quem queria ser feliz e fez a alegria dos poucos donos de quiosques que vendiam cerveja a 10 reais.

Não sou bebum. Não olhei as estatísticas, mas não vou me surpreender se houve mais gente passando mal este ano por causa de sede e desidratação. Nao havia nem água pra beber.

O senhor Paes não entende nada de reveillon em Copacabana, mas deve conhecer bem a lei de oferta e procura. Seu choque de ordem não ordenou nada, concentrou o direito de beber e vender nas mãos de poucos e deixou o povo passando sede e fome em plena noite mágica.

Seu choque de ordem matou a igualdade da festa do Rio.

PS: Enquanto procurava desesperado por algum isopor com cerveja gelada, fiquei curioso: o que será que bebia o prefeito no reveillón do choque de ordem?

Já deu pra perceber que estou no Rio, né? Desculpe pelo desaparecimento dos últimos meses em Buenos Aires. Mas estava hibernando para tocar novos projetos em 2010. Estarei de férias do blog até fevereiro, torcendo por um ano novo muito melhor. Continuo respondendo e-mails. Abraço a todos os leitores!